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Inteligência artificial · Ciência

Rich Sutton: criatividade artificial precisa de julgamento

Rich Sutton diz que modelos generativos imitam bem, mas não descobrem nada. Para uma criatividade artificial de fato, seria preciso diversidade, avaliação e seleção, afirma ele.

Rich Sutton·31 de maio de 2026·6 min de leitura

Rich Sutton é um dos pesquisadores mais conhecidos em reinforcement learning, um ramo da inteligência artificial que estuda como agentes aprendem com recompensas e objetivos. Ele trabalhou por muito tempo com reinforcement learning e com técnicas de adaptação contínua de modelos, e aqui conecta essa linha à ciência e à matemática.

Rich Sutton começa com uma piada sobre algo que é ao mesmo tempo novo e bom — só não nas mesmas partes. Para ele, isso descreve bem boa parte da IA generativa: ela produz textos, imagens e vídeos que parecem plausíveis, mas faz isso imitando exemplos, não descobrindo. O ponto, diz ele, não é que esses sistemas sejam inúteis, e sim que sua utilidade termina onde começa a criatividade de que a ciência precisa. Para ir além disso, o processo teria de incluir algo que hoje falta: avaliação e seleção.

Por que importa para você

Para a discussão brasileira sobre IA, Sutton toca num ponto que também aparece em debates regulatórios e acadêmicos no Brasil: como avaliar confiabilidade antes de levar um modelo para produção, sala de aula ou pesquisa. No contexto da LGPD, do Marco Legal de IA em discussão e de grupos como os da USP e da FGV, a distinção entre “gerar” e “descobrir” ajuda a separar promessa comercial de uso científico.

Ser bom sem ser novo não basta

Sutton desmonta a ideia de que o valor da IA generativa esteja em ser ao mesmo tempo nova e boa. Para ele, boa parte do que hoje chamamos de IA generativa — de modelos de linguagem a sistemas de imagem e vídeo — só chega a resultados plausíveis porque processa enormes quantidades de exemplos humanos. Se a tarefa é resumir um documento ou responder fatos da web, diz ele, o que se quer não é invenção, e sim fidelidade à fonte.

Esses sistemas podem gerar saídas novas e boas ao mesmo tempo, mas não no mesmo instante. E, em muitos casos, isso é perfeitamente aceitável.

1:39

Se a resposta da IA é nova, então ela foi além do material de origem. E é exatamente isso que chamamos de alucinações.

2:09
ContrapontoAn AI market analyst

A crítica é coerente, mas só em parte. Muitos usos comerciais de IA generativa não exigem descoberta, e sim velocidade, menor custo e personalização. Nesse contexto, a imitação confiável já pode ser uma vantagem competitiva.

Sutton admite que o acaso pode ser útil na fantasia, no entretenimento ou na geração de novas imagens. Mas insiste que o problema aí é, na prática, pouco solucionável: não sabemos até onde o sistema se afasta do material de treinamento, porque a web é enorme e as fontes possíveis são inúmeras. Para ele, a criatividade aparente continua sendo uma forma de incerteza controlada, não de descoberta.

O caminho que o sistema produz é ou novo ou bom. Ou ele se apoia no acaso ou nos dados, mas não combina os dois.

3:17

A IA generativa foi feita para imitar.

3:48
ContrapontoA veteran AI historian

Aqui Sutton usa um conceito de criatividade muito restrito, o que lhe permite praticamente excluir todo o campo generativo. Na história da IA, porém, a imitação muitas vezes foi o primeiro passo para sistemas mais capazes, não o ponto final. A fronteira entre imitação útil e descoberta é menos clara do que ele sugere.

Descobrir é tentar coisas

O ponto central não é gerar conteúdo, mas a criatividade de que ciência e matemática precisam. Nessas áreas, diz Sutton, reconhecer padrões não basta: é necessária descoberta real e julgamento real. Sua proposta é tão simples que parece banal, mas ele a trata como o princípio que falta em muita IA moderna: tentar muitas coisas, avaliar o que funciona e manter o melhor.

Descoberta é a ideia de tentar muitas coisas, ver quais funcionam e depois manter o que funcionou melhor.

7:12

O núcleo da descoberta é a combinação de três passos: diversidade, avaliação e retenção seletiva.

7:44

Para Sutton, essa sequência aparece em todo lugar: na seleção natural, no método científico, no aprendizado de animais e até no comportamento cotidiano. Na psicologia, diz ele, ela tem dois nomes: aprendizado instrumental e condicionamento operante; em machine learning, chama-se reinforcement learning*. A ideia comum é que o sistema não apenas reage, mas aprende com aquilo que produz.

ContrapontoAn AI industry critic

O problema é que Sutton passa rápido da descrição de um processo para a tese de que essa é a única forma séria de criatividade. Em muitos campos do conhecimento, especialmente linguagem e design, a seleção também acontece sem um objetivo formalmente fixado dentro do sistema. Sua tese funciona melhor em problemas com recompensa clara do que em outros.

Para sustentar isso, Sutton cita trabalhos de Donald Campbell, Daniel Dennett e Gary Cziko*. Ao mesmo tempo, reivindica uma contribuição mais específica: a ligação explícita entre descoberta e IA moderna, e sua separação de aprendizado supervisionado e backpropagation*. Esses métodos podem gerar comportamentos úteis, diz ele, mas sozinhos não têm o passo de avaliação que transforma diversidade em descoberta.

O novo nos meus comentários de hoje é ligar diretamente a ideia de descoberta à IA moderna.

8:51

A parte que falta é a avaliação. Sem avaliação, não pode haver retenção seletiva, e portanto não há descoberta.

9:25

O papel do julgamento

Então Sutton chega ao ponto mais delicado: aquilo que ele chama de criatividade. Novidade, diz ele, não basta; se não for reconhecida, pisca e desaparece, sem deixar traço. Por isso, em sua definição, criatividade também significa avaliação e retenção, e não apenas geração. Nesse entendimento, criatividade é um processo de seleção, não um lampejo isolado.

Eu digo que criatividade exige que o que foi produzido seja avaliado. Sem avaliação e sem manter o melhor, nada foi criado.

9:58

A novidade pisca, mas se seu valor não for reconhecido, ela pisca e depois se perde.

10:03

Aqui Sutton distingue dois casos. No primeiro, o humano faz a avaliação, como quando o sistema gera muitas imagens e uma pessoa escolhe uma delas. No segundo, mais importante para ele, a avaliação vem do próprio campo: um lance que leva ao xeque-mate, um passo matemático que leva a uma prova, uma ação com alta recompensa, uma teoria que explica melhor os dados.

ContrapontoAn AI market analyst

A distinção é útil, mas não descreve como muitos sistemas de hoje já funcionam. Os melhores produtos combinam feedback humano, métricas implícitas e otimização contínua, sem esperar um objetivo totalmente explícito. Sutton descreve mais um ideal teórico do que a forma real da maioria dos sistemas difundidos.

A consequência prática de seu argumento é que a diversidade precisa ser, em parte, cega. Ele admite que boa ciência não testa hipóteses ao acaso, mas também não é possível saber tudo antes. Se um algoritmo é totalmente definido, não há espaço para algo inesperado.

Não queremos que a diversidade seja totalmente desinformada, mas ela também não pode ser completamente definida.

12:08

Precisa haver alguma incerteza sobre onde está a resposta para que exista descoberta quando ela for encontrada.

12:17

A fraqueza do deep learning

Depois Sutton volta-se ao alvo mais concreto, o deep learning*. Backpropagation seria determinístico e, à primeira vista, incapaz de realizar descoberta no sentido que ele define. Em seguida, ele se corrige: o acaso entra no começo, na inicialização dos pesos, e dá ao sistema uma primeira dose de diversidade. Mas esse impulso, em sua visão, se esgota rapidamente.

Os pesos são inicializados com pequenos valores aleatórios, e isso fornece inicialmente um certo nível de diversidade.

12:47

Depois disso, a rede tende a perder sua capacidade de aprender, isto é, sua plasticidade.

13:07

Sutton liga essa fragilidade a um trabalho mais recente seu, continual backprop, que saiu há alguns anos na Nature*. A ideia é simples: de tempos em tempos, um neurônio pouco usado é reinicializado com pequenos pesos aleatórios, para que a diversidade não morra por completo e a plasticidade seja preservada. A tese implícita é que a criatividade computacional também depende de uma capacidade de mudança mantida continuamente.

ContrapontoA veteran AI historian

A referência à plasticidade é convincente, mas não prova que o backpropagation seja estruturalmente incapaz de inovação. Muitos avanços recentes vieram de arquiteturas de deep learning com busca, autoavaliação e objetivos auxiliares. Sutton descreve um limite real, mas o apresenta de forma mais geral do que a literatura sugere.

No fim, Sutton amplia o argumento novamente. Criatividade e descoberta seriam mais amplas do que aquilo que reconhecimento de padrões, previsão ou modelagem de mundo conseguem fazer. Essas capacidades são importantes, diz ele, mas, sozinhas, não produzem descoberta. Para chegar lá, seria preciso compartilhar o objetivo com o sistema, para que ele possa ser criativo, avaliar e encontrar coisas por si mesmo.

Se quisermos toda a força dos cientistas artificiais, precisamos compartilhar nossos objetivos com eles.

14:49

Somos ousados. Vamos automatizar a criatividade e a descoberta.

15:03

Note

  1. 1. Reinforcement Learning é uma técnica em que um agente aprende por meio de recompensas ou punições pelas próprias ações, em vez de apenas imitar exemplos rotulados.
  2. 2. Donald T. Campbell, Daniel Dennett e outros discutem há muito tempo a ideia de diversidade e seleção como motor do conhecimento e da inovação.
  3. 3. Backpropagation é o algoritmo que atualiza os pesos de redes neurais ao propagar o erro de volta pelas camadas.
  4. 4. Deep Learning é um conjunto de técnicas para redes neurais com muitas camadas e hoje a base de muitos sistemas de IA generativa.
  5. 5. continual backprop é o nome do método de Sutton e sua equipe para preservar a plasticidade da rede por meio da reintrodução regular de acaso.

FAQ

Por que Sutton critica a IA generativa?

Sutton critica a IA generativa porque, em sua visão, ela produz saídas que são ou novas ou boas, mas não as duas coisas ao mesmo tempo. Em ciência e matemática, diz ele, isso não basta: é preciso descoberta e julgamento, não só imitação.

O que ele quer dizer com descoberta?

Descoberta é tentar muitas possibilidades, avaliá-las e manter a melhor. Sutton resume isso em três passos: diversidade, avaliação e retenção seletiva.

Por que ele menciona reinforcement learning?

Ele menciona reinforcement learning porque vê nele um exemplo de descoberta na máquina: o agente tenta, recebe feedback e melhora. Nesse sentido, reinforcement learning se aproxima mais do comportamento criativo útil do que a geração supervisionada.

O que, segundo Sutton, não funciona no deep learning?

Sutton diz que o deep learning perde sua plasticidade porque a diversidade surge só no começo, com a inicialização aleatória dos pesos. Seu método continual backprop tenta reintroduzir acaso para manter o aprendizado vivo.

  • IA generativa
  • reinforcement learning
  • deep learning
  • machine learning
  • descoberta científica
  • matemática
  • AlphaGo
  • Nature

Resumo assistido por IA do podcast de Rich Sutton, conferido com a transcrição original.

FonteAssistir no YouTubeRich Sutton↗
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